sábado, 12 de dezembro de 2009

USURARIOS MODERNOS

     Em função dos estímulos ao crédito e do conseqüente aumento da inadimplência, frequentemente se fala do comportamento perdulário das pessoas que gastam compulsivamente. Na via contrária, os muito econômicos têm sido elogiados, quando isto remete a um projeto de gasto maior, uma organização de orçamento que seria a receita para um futuro de sucesso financeiro. A usura, economia obsessivamente neurótica, é pouco falada, talvez por parecer em extinção num mundo de febril consumismo. Entretanto, há uma formatação pós-moderna de usurários que está em franco crescimento.


    No estilo antigo, usurário era um tipo esdrúxulo: dono de sabida riqueza, vivia em condição miserável. Passava a vida ostentando trajes puídos, sapatos furados, comendo pão dormido a várias noites, tudo para amealhar ainda maiores economias. Seu estilo rústico, nos casos mais extremos, trazia odor característico da economia de água do banho e da falta de lavagem de suas desgastadas roupas. Usura era coisa notória, feia, indisfarçável. Alguns, por ironia ou por uma lição vinda da justiça divina, acabavam no final da vida descobrindo que sua fortuna se transformara em papel ou virara pó, pois alimentara as traças de seu colchão. Tão preocupados em segurar seus tostões, esqueciam de fazer o dinheiro circular, renovar as cédulas e atualizar seu valor. Passavam a vida como pobre e acabavam morrendo em cruel miséria.

    Nesta tecnológica pós-modernidade essa usura clássica foi sendo substituída por um comportamento de tipo misto. A combinação acontece em pessoas que, dotadas de sabida fortuna ou razoável acumulação financeira, se comportam de modo extremamente econômico em alguns momentos e noutros agem como pródigos gastadores. Economizam moedas, se regozijam de pedir desconto em valores ínfimos, sem perceber os efeitos e a deselegância de tal ato. Sua atitude faz parte de seu estilo de vida, amparada na ilusória justificativa de que é assim que se tornaram e se sustentam ricos. No instante seguinte, gastam valores absurdos em compras supérfluas. São perfumados usuários de grifes sofisticadas, hotéis de luxo, restaurantes muito caros. Comem e consomem de tudo o que é caríssimo, mas se sentem assaltados com o custo de uma consulta médica, de um tratamento dentário, da mensalidade da escola dos filhos.

     O usurário-perdulário faz seu dinheiro circular, redistribuindo seus recursos através de seus gastos, nisto é socialmente melhor do que o modelo antigo. Às vezes, se diz seguidor do que considera ser uma visão budista da existência, acha que o Universo está ocupado unicamente de conspirar a seu favor, reza o mantra do “venha a mim o Vosso Reino, mas seja feita a minha vontade”. Tudo gira ao redor do umbigo de seus desejos. Para ele há uma lógica dupla que rege a sua vida e a alheia: para si, tudo de bom, do melhor, do mais caro; para o outro – o que sobrar. Como acha que nada está sobrando, pois tudo o que possui pode vir eventualmente a lhe fazer falta, nega com genuína naturalidade os pedidos de ajuda ou colaboração, independente do mérito da causa ou do grau de dificuldade alheia.

     Seu raciocínio econômico não tem pé na lógica matemática e nem cabeça em conceitos financeiros, pois é guiado pelo nexo de uma visão egocêntrica. Essa característica costuma se tornar aparente nesta época natalina, quando muitos pedidos de apoio lhe são dirigidos. Evidentemente, coisa que um usurário-pródigo não suporta é ter que doar qualquer coisa. Doe-lhe corpo e alma ter que dar sem receber. É bem característico que seja avesso a atos de generosidade, pensa que é pobre quem quer e rico quem merece. Quando é abordado com algum pedido, parece estar tendo um chilique, transborda em queixas de suas grandes dificuldades financeiras. Sem pudor fala de suas despesas, para no momento seguinte, com igual falta de constrangimento comentar como pagou caro para tomar água mineral em Dubai. Chora tanto o custo do IPVA de seu novo carro novo ou o valor do imposto de renda a pagar, que desperta até pena. Quem vai lhe pedir ajuda corre o risco de acabar se sentindo tão tocado que acabe por lhe oferecer algum empréstimo.

     Essa atitude contraditória em relação ao valor do dinheiro era retratada de modo cômico num antigo quadro humorístico, que encenava o encontro do primo rico com o primo pobre. O que na época soava absurdo e por isto nos fazia rir, hoje está se tornando freqüente o bastante para ser considerado “normal”, não fazer graça e nem ser observado. Pois fica a reflexão para que não prolifere ainda mais esta forma anti-social e anti-solidária de se relacionar com o dinheiro.

publicada Jornal Agora
Caderno Mulher
12/12/2009

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

TRAIÇÕES DA MEMÓRIA

     Esquecer o nome de alguém, ou nem conseguir se lembrar de quem se trata a pessoa, pode ser bem constrangedor, nos fazendo ficar à deriva numa conversa que soa interminável. Enquanto nos digladiamos escrutinado a memória sem conseguir localizar afinal de onde vem a criatura, ela continua a nos falar animadamente de nossa vida, demonstrando ser alguém íntimo e familiar. Coisa bem terrível e, no entanto, não tão rara.


     Mais complicado é quando se esquece o aniversário de uma pessoa amada. Isso costuma gerar amargas cobranças e prolongados ressentimentos, sendo interpretado como fruto de desconsideração ou prova de falta de amor.

     Nos ingênuos tempos da brilhantina, o máximo de trauma familiar era se esquecer de buscar os filhos na escola. Fato acontecido com muita gente de boa índole e coração amoroso. A criança acabrunhada, beiçuda, cabisbaixa ou em choro inconsolável, acompanhada por uma professora de braços cruzados, sobrancelhas em riste e semblante de reprovação, esperava quem, esbaforido, descabelado e coberto de vergonha, chegava atrasado para buscar o aluno após o horário estabelecido. Inútil era buscar qualquer explicação que justificasse a constrangedora falha, colocada na condição de indesculpável. Dependendo da fragilidade subjetiva, a situação poderia fazer marca e se tornar uma catástrofe psicológica na vida da criança ou apenas fazer parte do anedotário das situações familiares, coisa a ser recontada com ares de graça em fases bem posteriores da existência.

     Nesses tempos mais recentes, entre tantas coisas inconcebíveis, surgiu um tipo de esquecimento até então impensável. Crianças bem pequenas, na maioria das vezes bebês, morrem por serem esquecidos dentro do carro. O espanto indignado dos primeiros casos levou a que fossem tratados como suspeitos de filicídio. A repetição fez deixar claro que este tipo de tragédia não era gerado por um desejo inconsciente de matar, mas por uma falha, um cruel lapso de memória. O roteiro dos casos relatados traz um dado unânime: a mudança de rotina fez com que fosse esquecida a passagem e o desembarque da criança na escolinha.

     O ato de levar os filhos para a escola ou para a creche é algo tão automático quanto o escovar os dentes, feito sem cerimônias ou mesmo qualquer forma comunicação. É quase uma entrega, feita às pressas, com o carro mal estacionado, às vezes até no meio da rua. Enquanto a criança vai sendo despejada, o pensamento continua conectado com os quefazeres do cotidiano. Na memória esse tipo de tarefa repetida diariamente fica arquivado entre atos automáticos, aos quais não se precisa dedicar atenção por ser feito “naturalmente”. Aí reside o perigo – agora mais uma vez dramaticamente confirmado. As crianças que já caminham ou falam tem recursos de autodefesa para se desvencilharem, mas os pequenos são completamente reféns da atenção alheia.

     As falhas da memória encontram na psicanálise explicações quase canônicas, associadas a motivações do imperativo inconsciente, senhor de todas as causas. Por esta leitura sempre sobrarão suspeitas para nossos lapsos ou motivos submersos trazidos à tona pelas falhas de nossos atos.

     O arquivo de nossas vivências é poderoso e complexo, mas por mecanismos neurofisiológicos ou por motivos inconscientes está sujeito a entrar em colapso diante das sobrecargas, das chuvas e tempestades que nos castigam. A valiosa memória é capaz de nos trapacear, de bloquear conteúdos importantes, embaralhar lembranças, acrescentar elementos inexistentes (falsas memórias) ou sofrer breves panes. Pequenas falhas, mínimos esquecimentos, podem acabar tendo grande efeito e até resultar em tragédias. Precisamos assumir que a memória não é 100% confiável, como gostaríamos que fosse.

     Saber disto talvez ajude a ter maior tolerância com os esquecimentos cotidianos mais banais – que não precisão ser tão dramatizados - e ter um redobrado zelo diante de situações que insistentemente tem se revelado gravemente perigosas, tragicamente fatais.

Publicada no Caderno Mulher
Jornal Agora 28/11/2009 

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

A BARBARIE DA SAIA CURTA

      Pouca gente poderia imaginar que saia curta fosse capaz de provocar alvoroço. Afinal de contas, por estas bandas do equador, corpo nu está disponível sem censura em qualquer lugar. Desnudas e provocantes circulam na tela de TV e fora dela. Atitudes de sensualidade levemente vulgar ou explicitamente grosseira fazem parte da performance de mulheres famosas em propagandas de todo tipo de produto. Qualquer motivo é pretexto para liberar geral, corpo e libido, antes, durante e depois do carnaval. Sem falar nas letras de músicas ou das danças de conteúdos explicitamente sexuais, como aquela “na boquinha da garrafa” que por algum tempo podia ser tocada e dançada por toda gente até em festas infantis.


    Pois num contexto destes, como não se espantar com o escândalo provocado por uma moça de pernas de fora no ambiente jovem de uma universidade? Reflito sobre o fato, imaginando os atos a partir dos fragmentos divulgados mundo afora:

ATO 1:

    A cena não foi de improviso. Dá para imaginar que a preparação possa ter começado bem antes. A moça, moradora em pobre periferia, demoradamente escolheu seu melhor traje. Cheia de faceirice, mirou-se de cima a baixo sorrindo para o espelho, virou-se de um lado e de outro, até se olhou de costas. Achou que estava linda e maravilhosa em seu vestido vermelho, justinho e curtinho como lhe parecia ser adequado à ocasião. Fazendo caras e bocas, mandou beijinhos para si mesma e saiu confiante de que iria abalar a torcida. Rebolando e fazendo pose sentia-se a última bolachinha do pacote, a coca-cola do deserto. Afinal, estava vestida para festa, do jeito e da maneira com poderia ir aos populares bailes funkes, tão comuns na zona em que mora. Entre o ambiente da universidade e a pista de dança não havia muita diferença para sua cabeça alourada pela química comprada a pouco preço na farmácia do bairro.

ATO 2:

    Seria um dia como outro qualquer na universidade que se segura no modesto 159º lugar entre as 175 universidades do país. Tudo estava normal até que a turminha solta dos corredores reparou na figura destoante e logo foi deflagrando comentários, cutucões , risadas e reações que foram se fortalecendo em eco.

    No burburinho, ninguém pareceu ter outra coisa a fazer ou pensar a não ser se envolver na baderna formada. No inicio, o movimento deve ter aguçado ainda mais a exibição da garota de periferia, que interpretou o nervosismo geral como sinal evidente de seu sucesso: estava abalando as estruturas – as grosserias verbais lhe eram formas de elogio familiar, fazem parte do refrão de músicas bastante tocadas. Mas o grupo foi tomando corpo e adquiriu outro senso e ânimo. Em efeito de maré, a onda ganhou força e da marolinha maldosa de alguns se tornou uma tsunami violenta de gente irada e enlouquecida. A multidão feita em corpo e coro encontrou ali sua Geni e passou a cuspir-lhe ofensas mais agressivas e lhe jogar todas as pedras. Assim como um dia jovens incendiaram um índio porque o confundiram com um mendigo, desta vez apedrejaram a estudante porque acharam que, pela roupa e pelos gestos, seria uma prostituta e isto autorizaria que contra ela qualquer coisa pudesse ser dita ou feita. A coisa virou um playground de adolescentes que queriam simplesmente se divertir com o fato novo do momento. Como não surgiu o grupo do deixa disto, os poucos anjos da guarda de plantão tiveram que recorrer à intervenção do agente de autoridade policial para impedir que a coisa chegasse ao nível de selvageria.

   O primeiro ato retrata a dificuldade da jovem de discriminar diferenças necessárias, algo muito freqüente nas pessoas em geral, mas muito especialmente em quem ainda tem pouca experiência na vida. Houve uma ingenuidade maliciosa em suas atitudes provocativas, o que enseja uma mistura de um punhado de culpa e uma porção de inocência. Infelizmente a notoriedade do caso poderá reforçar ainda mais o lado exibicionista da moça e dificultar sua busca por formação universitária.

    Já o ato seguinte, o movimento coletivo não me parece fruto de uma intenção moralizadora, mas simplesmente ensejado pelo espírito de brincadeira sádica. Do grande grupo, apenas uns eram os protagonistas, tinham a intolerância e a maldade conscientes, os demais foram meros figurantes, agindo sem se darem conta da gravidade de suas atitudes e confirmando o quanto podem ser potencialmente perigosos ânimos exaltados em ajuntamentos humanos.

    Entre inocências e culpas, a situação enseja uma autocrítica coletiva necessária, que nos provoque interrogações a serem respondidas: que jovens estamos criando? Aonde temos coletivamente errado para fragilizar tanto a formação subjetiva, emocional, afetiva, moral de nossa juventude? Quando o ambiente universitário é palco de uma situação de tamanho excesso de intolerância, que poderemos esperar de nosso futuro?
publicado caderno mulher
Jornal Agora
14/11/2009

sábado, 31 de outubro de 2009

LIVRE ARBÍTRIO

                                  O livre arbítrio está em franca extinção, pelo menos no sentido moral terreno.


     A liberdade de decidir agoniza, ceifada a golpes de foice diários. No universo coletivo, importantes Comissões de Inquérito funcionam como conclaves daquele trio de macaquinhos cegos, surdos e mudos: ninguém viu, ouviu ou falou coisa alguma. A turma do faz de conta, fiéis escudeiros de seus superiores são apenas marionetes reféns de verdades previamente estabelecidas. Sustentam discursos caóticos para justificarem decisões amparadas em disparates. Saindo dos maus exemplos apresentados pelo festivo andar de cima, percorremos um caminho de obstáculos para garantir o exercício da liberdade de nosso arbítrio.

    Vivemos a maior parte de nossas horas ligados num tipo de piloto automático, sem sequer nos darmos conta de milhares de pequenas escolhas que vamos fazendo. Essa economia mental faz com que ao final de um dia recheado de afazeres tenhamos a impressão de absoluto vazio. Não fizemos nada a que pudéssemos atribuir algum sentido. Andamos para lá e para cá, percorremos caminhos rotineiros, dobrando à esquerda, à direita, cumprindo rotinas e compromissos, sem nada pensar. Almoçamos e jantamos indiferentes diante do bombardeio de noticias catastróficas apresentadas pelos telejornais. Se não pensamos, é como se nem existíssemos. Nesse modo de viver nosso livre arbítrio permanece em estado de espera, com aquela lusinha piscante apenas alertando sua existência. Assim se passam a maioria das horas de nossos valiosos dias e os dias de nossa transitória existência.

     Mas vez ou outra ligamos nossos sensores para fazer deliberar alguma coisa, para tomar alguma atitude. É aí que se apresentam outras dificuldades. Quando nos escapamos dos automatismos, caímos no universo das escolhas cegas.

     Não é fácil decidir neste tempo em que a liberdade está apenas na aparência de coisas apresentadas em linguagem estrangeira, letras microscópicas de rodapé de página ou enigmáticos códigos alfanuméricos. Para complicar um pouco mais, somos estimulados a pensar que podemos ser salvos por alguém que nos conhece melhor do que nós próprios: são os especialistas, consultores e analistas de todas as espécies, que com suas batutas mágicas orquestram escolhas e decisões. E se seguirmos seus sábios conselhos, estaremos a salvo de nós mesmos, embora completamente perdidos naquilo que, em princípio, era a essência da vida: a nossa preciosa liberdade de pensamento.

     Estamos ficando demasiada e perigosamente acostumados a lavar as mãos, fechar os olhos, tapar os ouvidos, cruzar os braços e transferir responsabilidades. Será que não é o momento de tentarmos preservar nosso sagrado direito de existir, de fazer nossas escolhas, ainda que disto resulte dar mancadas, cometer equívocos, fazer o papel de Mariazinha ou Joãozinho do passo certo?

     A vida é valiosa e precioso é o direito de escolher, desde as menores e mais prosaicas trivialidades do dia a dia, até – principalmente - as questões mais fundamentais, aquelas que podem vir a justificar nossa existência ou comprometer moralmente nossa história. Enquanto tivermos ar para respirar e nos for concedido o dom da lucidez, ainda teremos chances de saber diferenciar a estrada do bem do caminho oposto, obscuro, mas com claros sinais de levar para um rumo nebuloso. Seremos capazes de escolher entre nos associarmos a pessoas iluminadas, transparentes, honestas ou nos juntarmos ao grupo cada vez mais numeroso dos Judas modernos, dos fariseus de gravata, optando neste caso por ancorar a vida numa filosofia de resultados, na qual os fins justifiquem os meios – por piores que sejam estes.

Publicado: Caderno Mulher
Jornal Agora 31/10/2009                           

sábado, 17 de outubro de 2009

SIM, NÓS ACREDITAMOS!

     Deus é brasileiro, nós dizemos, repetimos e acreditamos. Deus nasceu aqui, Ele é nosso. Pronto!

     Por isso, inventamos coisas que ninguém no mundo pensou e que só aqui funcionam. E se não funcionam plenamente nossas criações geniais, que nos importa? O que vale é que nós acreditamos e nos basta isto. Somos movidos por uma fé inquebrantável.
    Um bom exemplo disto é que criamos o mais fantástico sistema de votação eleitoral. Não precisamos ter a trabalheira demorada de contar, recontar, conferir. Nossas eleições são sem cédulas, pós-modernas, totalmente digitais e nós acreditamos cem por cento na idoneidade de quem fez o programa e em todos que o controlam, pois sabemos que, seja lá quem for, são criaturas de ilibada conduta. Acreditamos, temos total fé em Deus e em nosso infalível, inviolável sistema eleitoral e em todas as gentes que dele se ocupam e que dele dependem.
    Os outros, aqueles alienígenas estrangeiros, vêm aqui, olham, bisbilhotam, mas nada entendem. Eles, criadores de céus e terras, inventores de hardwares e softwares, não conseguem decifrar nossa genialidade. Retornam a seus países, enrolados em sua racionalidade obtusa, incapazes de copiar, de reproduzir nossa agilidade. Continuam votando em grandes cédulas de papel e, pasmem, até lambendo os dedos para contar os votos manualmente. Como podem? Falta-lhes o que temos para dar e vender: falta-lhes fé. São dignos de pena. Eles não acreditam em votos que não sejam palpáveis, contáveis e recontáveis por várias mãos. Pobres povos ricos!
    Na área da Educação, inventamos o originalíssimo vestibular, pois não copiaríamos modelos estrangeiros. Temos mais fé em nosso taco, em nossa bola, em nossa ginga. Por aqui, cada universidade faz de seu jeito e a seu tempo, dando oportunidade para que os estudantes possam viajar pela extensa república dos estados desunidos, tentando exame aqui e acolá, próximo e alhures. Além desse aspecto turístico, o modelo criado possibilitou novos filões no mercado de cursinhos e apostilas. Temos fé de que este é um sistema muito melhor do que o de outras terras e de suas velhacas universidades; o jeito deles não nos serve.
    Sabe-se lá porque, mas ainda com toda a certeza e fé na boa vontade das ordens superiores, surgiu a brilhante idéia de criar mais uma prova, para tornar nosso excelente sistema ainda melhor.
    Na capital desta grande república, um dedicado grupo de especialistas de notório saber pedagógico elaborou um novo sistema de avaliação. A novidade logo foi absorvida, com a total confiança que sempre nos anima. Tudo ia maravilhosamente bem, como já é de nosso costume, até que uns amadores – só mesmo eles – tiveram a imprudente idéia de furtar um exemplar da nova prova. Ora vejamos! Só podiam ser amadores. Profissionais não seriam capazes de tamanha ousadia. Mas eles, meia dúzia de três ou quatro, fizeram a estripulia de tentar puxar nosso tapete, burlando a segurança das câmeras e fazendo escárnio da fé que temos em nossas instituições públicas e nas empresas que, por nos servirem, gozam de idêntico prestígio.
     E como ficaremos agora? Respondo eu sem titubear: ficaremos na mesma.
    Nós continuaremos a acreditar e essa boa fé nos protegerá.
    Nada e ninguém, nenhum escândalo, nenhuma falcatrua, vai nos fazer deixar de acreditar nas idôneas autoridades que nos governam, sempre imbuídas de boas intenções, elevado espírito público e eficientes projetos. Nossa fé canônica os reveste de uma plena e eterna confiança.
    Sim! Nós acreditamos.* Tudo segue absolutamente como antes estava, pois Deus é brasileiro e nossa fé eternamente inabalável.
    Amém!
(*também acreditamos em coelhinho da páscoa, papai Noel, etc,etc)
Publicado Jornal Agora
Caderno Mulher 17/10/2009

sábado, 3 de outubro de 2009

REENCONTRO

     Publicada Caderno Mulher
Jornal Agora 03/10/2009
     Após uma retirada necessária, retorno de uma ausência que eu pensava seria definitiva.


     Há momentos em que a vida nos é apresentada na amplitude de céu de brigadeiro, com amplas latitudes e longitudes existenciais; noutros se fecha o horizonte, restando-nos escassas possibilidades. Como numa prova de colégio, é optar por isto ou aquilo ou ainda aquilo outro. Se nenhuma das três ou quatro alternativas nos servir plenamente podemos fechar os olhos e contar: uni duni tê salame minguê a escolhida foi você. E seja lá o que Deus quiser – e que Ele permaneça conosco em nosso rumo forçado.

    Esses momentos uni duni tê são orquestrados pelo senhor destino, escapam do alcance de nossas mãos e da força de nossa mente. Este senhor instável e poderoso é capaz de traçar inesperadas rotas, estabelecendo novos contornos e fronteiras ao nosso arbítrio, deixando nítida apenas a certeza da fragilidade da existência. É ele quem marca ritmos ao curso dos ventos, brisas e de alguns fortes tornados que vão tocando nossa vida – às vezes de forma saborosamente amena e serena, noutras absurdamente turbulenta. Pois foi o regente dos humores do tempo e da vida quem arbitrou algumas condições muito adversas que me impediram de continuar a prazerosa atividade de escrever.

     Levo a sério minhas decisões, assumo minhas atitudes como se fossem definitivas e irreversíveis, mesmo aquelas que fui constrangida a tomar e que seriam de minha vontade poder modificar.

     Irreversível soa radical, mas, pensando bem, quão poucas são as oportunidades de reverter escolhas importantes? Claro que melhor seria poder ir e vir, quando e como se desejasse, encontrando tudo e todos exatamente como estavam em nossa partida. Não é assim que funciona a vida, tão rápida e transitória. Sob efeito do tempo passado, não fica pedra sobre pedra. Prédios são arruinados, móveis trocados e as pessoas tornam-se outras. Quando nos dispomos a uma ausência, quando nos retiramos, a vida segue seu curso, fluindo por entre as mudanças das cores das estações e nada, absolutamente nada, fica exatamente onde antes estava. Por isto, reverter decisões ou situações pode não ser impossível, mas é, no mais das vezes, algo que precise ser pensado como muito improvável.

     Este pensamento, entretanto, não me impede de manter um quinhão valioso de liberdade, ou de esperança, que me permita a possibilidade de adiante mudar de idéia. Não sou refém de minhas escolhas, aliás, esta é uma das preciosas oportunidades que temos na vida. Incoerente? Não. Tomo decisões com a firmeza de quem tem certeza do que faz e não vai se arrepender do que está feito. Mas se por um capricho da vida ou por algum aprendizado posterior, perceba que posso corrigir ou mudar alguma coisa, porque não o fazer?

     Não confundir este comportamento com aquela atitude de estar “dando um tempo”. Não faço parte da numerosa turma que “dá um tempo”, dos que querem ir sem ir ou ficar sem ficar. Esses pretendem driblar a responsabilidade de escolhas, imaginando assim se esquivarem de suas consequências. Diferente disto é assumir os custos e benefícios do compromisso de decidir e ter a coragem de manter a liberdade de, diante de outra situação ou momento, poder mudar de idéia.

     Dei por encerrado um trabalho, mas passados longos e rápidos dez meses, abriu-se a vida em novas possibilidades e estou retornando. Nesse período muitas coisas mudaram, até a Língua Portuguesa foi alterada e terei que me ajustar a estas e outras transformações.

     Retorno refeita, animada com o incentivo que recebi dos leitores durante minha ausência e muito grata pela oportunidade de voltar.

     É precioso poder reencontrar este espaço e muito bom estar de volta!

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

AFILHADOS NATALINOS

Caderno Mulher Interativa
22/12/2007
    Ações solidárias se intensificam nesta época de Natal. Muitos são os apelos que podem ser atendidos na generosidade de apenas um quilo de alimento. Nós – os aquinhoados com boas camas e boas mesas – podemos aplacar um pouco do nossa culpa social ajudando em cotas mínimas aos que de tudo necessitam. Essa desagradável culpa não é decorrente de sermos responsáveis pela pobreza alheia, mas por sermos responsáveis pela situação confortável que desfrutamos. Nos é fácil fazer alguma coisa; é muito fácil fazer qualquer coisa – pois oportunidades não nos faltam e são oferecidas a todo momento. Há um clamor para que, ao menos por esses dias, não haja fome ou se diminua a miséria dessa gente que costuma passar a vida invisível, sobrevivendo em periferias física ou socialmente distantes. Carrinhos de compras ficam lotados nas portas de supermercados, arrecadando donativos, num movimento feito no coletivo, plural amplo que de quilo em quilo acaba contado às toneladas.


    Entretanto, há algumas formas de solidariedade personificadas, que tornam presente a figura dos destinatários. É o caso das ações de apadrinhamento natalino. Nelas as instituições cadastram os beneficiários-afilhados e um pequeno papel é entregue aos padrinhos/madrinhas, com dados básicos do afilhado natalino: idade, tamanho de roupas e calçados. Essa aproximação visual ou imaginária transforma a ação de doar em ato de presentear, de agradar, de mimosear alguém.

    Doar é coisa mais despachada, que se conclui em só um gesto – coisa rápida – o que não diminui seu valor e sua generosidade. Mas presentear é um tipo diferente de oferta, mais envolvente e comprometedor. Se precisa ter senso e medida para fazer a coisa. No apadrinhamento solidário se estabelece essa aliança de compromisso – em qualquer coisa deixa de servir; o genérico e o indeterminado não se encaixam. Há um carinho, um cuidado que demanda que se gaste um tempo de nossa existência com este outro ser, que passa a ter nome e corpo. Essa personalização faz com que a doação deixe de ser um totalmente anônimo e com que as mãos envolvidas de alguma forma se toquem, rompendo a separação invisível, mas muito concreta entre o mundo dos que têm e o dos que tão pouco possuem.

    Independente da forma que nos seja permitido agir, o importante é que se faça alguma coisa – o melhor que nos seja possível. O fundamental é que o Natal seja cada vez mais solidário e que esse espírito semeie frutos duradouros, capazes de vingar e florescer em outros momentos do ano. Esses são os meus votos de um Feliz Natal: recheado de generosidade e solidariedade.