domingo, 12 de dezembro de 2010

O Disse Me Disse

“Disse me disse” é a corrente de maledicência, do boato, do mexerico, da difamação. Até não muito tempo atrás esse era o tipo de coisa feita à boca pequena, ao pé do ouvido, em voz baixa, espalhada pessoa a pessoa, num processo demorado e trabalhoso. Dizia-se: quem conta um conto acrescenta um ponto, pois era assim que a coisa ia crescendo. Havia o risco – ou a chance - de que as palavras se perdessem ao vento, se encontrassem no caminho uma pessoa de bem, que não se prestasse a retransmitir a mensagem, cortando o elo da corrente maldosa.


Para conseguir anonimato e fugir das responsabilidades era necessário lambuzar os dedos no complicado trabalho de recortar e colar letras de jornal, montando artesanalmente a maledicência, que ainda precisava ser entregue sorrateiramente ao destinatário.

Distantes parecem aqueles tempos em que fazer coisa errada dava tanto trabalho, medo e vergonha. Agora se tornou rápido e fácil ferir ou até destruir a moralidade de alguém: basta um toque de teclado e mensagens anônimas são transmitidas a todos os quadrantes. A rapidez da transmissão de informação ampliou muito o poder destrutivo das palavras. É só soltar na rede da internet uma notícia e ela vai sendo reproduzida automaticamente nas listas de contato. A coisa é muito fácil de fazer: demanda quase nenhum trabalho ou esforço, pode ser mal acabada, produzida em série e distribuída instantaneamente. E se quiser tornar a coisa mais real e convincente, é possível usar imagens modificadas digitalmente. Uma imagem vale mais do que mil palavras – continuam dizendo os ingênuos, que não sabem o quanto os olhos podem iludir o coração e enganar a mente.

Com a internet, a capacidade destrutiva dos fuxicos extrapolou qualquer expectativa: tudo se inventa, comenta, recebe e retransmite sem necessidade de confirmação ou autoria. Fofoca - que era coisa feia, repreensível - se tornou quase natural. A internet é a rede do vale tudo, o território do “disse me disse” capaz de alterar destinos e destruir biografias. Acredite quem quiser e questione quem tiver juízo.

Ninguém precisa ser famoso para ser alvo: qualquer um pode ser atingido por comentários e maledicências, agressões moralmente indefensáveis, golpes baixos que atinjam mortalmente sua honra e dignidade, mas naturalmente são as pessoas com projeção pública os alvos mais fáceis.

É preciso ter muita lucidez, bom senso e vigilância para não cair nos contos entregues em lote diariamente na caixa de correio virtual. Pode ser mais prudente descartar sem ler mensagens que trazem informações maledicentes, afinal melhor correr o risco de perder algum trigo do que cometer o engano de gastar precioso tempo semeando joio.
Publicada em 30/10/2010

De Improviso e Com Prorrogação

Somos um povo talhado pelo improviso, pelas coisas de última hora, pelas promessas de curto prazo com cláusulas de previsíveis prorrogações. Do trabalho acadêmico, à declaração de imposto de renda e ao jogo de futebol: adoramos a última hora e contamos como certo um tempo de acréscimo ao que fora estabelecido. Essas são nossas marcas, nosso jeito coletivo de ser. Um modo meio malandro, despojado da seriedade dos compromissos. Para quase tudo damos um jeito, algum jeito. O jeitinho está em nosso DNA. Isso pode ser um talento ou um defeito, dependendo do lugar, da hora em que se coloque. Com muita jinga, temos grande habilidade para contornar situações, inventar atalhos, abreviar trabalhos e fugir dos grandes esforços. Somado a isto, temos um traço empreendedor: somos mercadores natos. Todas estas características são um orgulhoso patrimônio nacional, nosso jeito brasileiro de tudo fazer de improviso e com prorrogação.


Talvez por isto, acompanhar o trabalho de resgate dos mineiros chilenos tenha sido como viajar a um estranho país estrangeiro: deu para perceber bem a diferença cultural entre o jeito deles e o nosso. Somos vizinhos próximos, mas de mundos distantes. Por lá, planejaram várias estratégias e colocaram simultaneamente em prática três planos de trabalho. Não contentes com tamanha prudência, na hora do resgate, se puseram a testar várias vezes o procedimento. Ah, se fosse com a gente... Planejar não é muito nossa praia e menos ainda fazer ensaios prévios. Esboçaríamos o plano A, só se não funcionasse, então pensaríamos no B.

O que dizer de suas cautelosas previsões? Cumpriram sua missão na metade do tempo previsto. Eles têm uma lógica, um modo de pensar bem diferente. Quando falam em prazo, estão estabelecendo um tempo máximo, diante do qual se comprometem como se estivessem atrasados. Aqui é exatamente o contrário: quando se faz uma previsão, este tempo é pensado como o mínimo, basta ver o andamento da mais corriqueira das obras públicas. Ninguém se constrange ou envergonha de não cumprir prazo: estamos acostumados com isto. Sem falar na mania nacional de dizer que uma ação futura já foi começada, está em andamento – ainda que nenhum ato tenha sido praticado. Preferimos nos enganar com doçura das ilusões a encarar a dureza dos fatos.

Outra diferença notória foi a falta de merchandising: total ausência de patrocinadores. Se fosse por nossas bandas não perderíamos a oportunidade: haveria grandes balões publicitários, empresas diversas distribuiriam “brindes” e não faltariam bonés coloridos com logomarcas e farta distribuição de produtos de apoio. Sem falar nas barraquinhas modelo feira livre, com venda de churrasquinho, pipoca e lembrancinhas com fotos dos mineiros e do acampamento. Famosos apresentadores de TV comandariam as transmissões e câmeras exclusivas da Rede Globo estariam instaladas dentro da mina e em todo o trajeto do resgate; além de promoverem campanha para angariar fundos para o resgate e para as famílias dos mineiros. Faltaria espaço para os políticos de várias jurisdições se acotovelarem diante dos holofotes: de vereadores ao presidente da república – todo mundo ia querer estar presente nos abraços e ter seus minutos de discurso.

Realmente, os alienígenas chilenos são muito esquisitos. Estranho é o Chile, muito estranho. Ou será que estranhos somos nós?
Publicada em 16/10/2010

O Povo, a Virtude e o Voto

“Povo que não te virtude, acaba por ser escravo”*

Saber ler e escrever são as exigências legais mínimas para ser candidato a cargos públicos eletivos, mas este critério está longe de ser condição suficiente para desempenhar atribuições de importância maior como as funções de legislar, gerenciar o bem coletivo, tomar decisões complexas. É preciso muito mais.

Em termos cognitivos, as funções públicas eletivas exigem um nível intelectual suficiente para entender não somente as leis, mas os complexos meandros das macro-negociações. Para tomar decisões corretas e sensatas há que se ter condição mental para discernir, para avaliar, para refletir, raciocinar. Esta é uma parte da questão, mas talvez nem seja a mais grave já que os grandes desmandos têm sido praticados por pessoas que denotam boa capacidade intelectual . Por incrível que a muitos pareça, mesmo uma pessoa com limitação intelectual é capaz de entender a diferença entre o bem e o mal, entre o honesto e o desonesto, entre o justo e o injusto. São noções morais que ocupam uma área cerebral diferente das noções cognitivas do conhecimento formal (escolar, acadêmico).

Embora seja plausível escolher os mais capazes, mais inteligentes e mais cultos – já que desempenharão funções de alta relevância, o que mais se precisa (e se tem falta) são de candidatos éticos. Pessoas que tenham índole resistente às tentações do poder; que por seu passado ou por seus traços demonstrem a capacidade de negociar, sem cair em conchavos; lidar com poder, sem escorregar na ganância; manter o espírito e o interesse público, acima de seus interesses pessoais e até mesmo dos restritos interesses partidários. Pessoas com autonomia de pensar e agir: capazes de se manterem fiéis aos seus compromissos, mesmo quando sob pressão. É por ai que a escolha se torna cada vez mais difícil.

Pode parecer fora da realidade, mas existem – ainda existem – os bem intencionados, os honestos, os humildes, os autênticos, embora seja difícil achá-los no baile de fantasia que se tornou o período eleitoral. Diante de tanta propaganda e dos efeitos maquiadores da publicidade, ficou complicada a tarefa de separar o joio do trigo. Aliás, exatamente como no cultivo, os terrenos arados pelo poder são mais férteis ao joio do que ao trigo. E, como toda erva daninha, o joio não exige cuidado para ser semeado, cresce rápido e é muito resistente. Ai está bem figurado o cenário político atual: os campos estão minados de joio e os grãos de trigo sobreviventes precisam ser protegidos para que não se contaminem e envenenem. É preciso ter um paciente e cuidadoso trabalho para separar o joio dos falsos discursos do valioso trigo das boas intenções e da índole honesta.

Já que temos o poder de escolher, porque optar pelos piores? Para fazer graça? Se assim agirmos estaremos assinando nossa desgraça e confirmando nosso constante papel de bobos da abusada corte que desde os mais remotos tempos do império continua orbitando nos palácios governamentais. Na diversificada lista de candidatos há os que inspiram esperança de possuírem maiores virtudes e são esses que merecem a aposta de nosso voto. Que os eleitos deixem de refletir mazelas nacionais e passem a retratar as virtudes e glórias de nosso povo.

*Hino Rio-grandense, letra de Francisco Pinto da Fontoura

Publicada
em 02/10/2010

Depois dos 50

Após os cinqüenta anos, fica fácil perceber a mudança no curso da vida, que em muito se assemelha ao descer de uma montanha: a subida é árdua, a permanência é breve e a descida é representa o maior e mais difícil obstáculo a ser vencido. Ao chegar ao topo não se terá vencido a metade do caminho, pois o percurso seguinte será muito mais exigente e perigoso. Exatamente como na vida.


A passagem dos 50 anos é talvez a mais radical mudança, um marco, o ponto em que começamos a irremediável descida. Não há mais jeito: a reviravolta é geral. Passamos a enfrentar novas provas. Até ali buscáramos números altos nas notas do colégio, no vestibular, na faculdade, no contracheque, nos extratos de banco. Agora passamos a perseguir as notas baixas. O tormento são os exames de laboratório, com a exigência de cada vez mais diminuir suas taxas. Quem consegue as menores notas e dribla os avanços de colesterol, triglicerídeos, glicemia e pressão arterial é um vitorioso, pois vai percebendo que o grosso da tropa se tornou cliente fiel de médicos e farmácias.

A mais difícil das mudanças é que passamos a acompanhar o obituário do jornal, antes de ler qualquer outra matéria, pois ali encontramos com freqüência nossos amigos e conhecidos. A cada notícia de falecimento, um abalo, um sentimento de perda, uma sacudida existencial. A vida parece fluir mais rapidamente e não há mais tempo para desperdiçar com bobagens. É prudente e sábio que se mude o senso e altere a importância de muitas coisas.

Mas, o que seriam “bobagens”? Depende do conceito de cada um. Percebendo que estamos rumando montanha abaixo, não parece sensato carregar peso extra ou bagagens desnecessárias. É prudente largar as ilusões do trecho de subida, que nos faziam sonhar chegar às nuvens e permanecer eternamente jovens: melhor tratar de cuidar da saúde, deixando secundárias as questões narcísicas, meramente estéticas. Que se vão os luxos e os anéis, mas que se preservem os dedos. A cor é outra, a vida é outra. Se já se viajou o bastante ou não se conheceu do mundo o suficiente, não fará mais tanta diferença. Se o topo da carreira foi alcançado ou nunca se conquistou sequer um cargo de subchefia, isto deixa de abalar nossa felicidade. Tudo passa a ser tão diferente, quando se olha de outro ângulo.

É possível após o 50 anos mudar de amor, de profissão, de cidade, mas a maior revolução será outra. O despojamento é a maior fortuna, o ouro que se pode alcançar com a maturidade. Descer do salto alto ou do sapato de bico fino, largar ambições e vaidades resulta em muito melhor proveito do que insistir na busca de efêmeros sucessos. Descartar-se de tudo que é trivial, abreviar as necessidades e valorizar o que realmente importa: a essência das coisas, das situações e, principalmente, das pessoas. Essa mudança de ótica faz parte da colheita sábia de quem aprende com as mudanças.

Dirão alguns: mas que exagero! Hoje uma pessoa de 50 anos pode manter a imagem e vitalidade de bem menos idade e ultrapassar os 90 anos com lucidez e saúde. E eu lhes respondo: pode parecer mais jovem, mas adentrou na fase de prorrogação da existência que é de mais incerto prazo.

Publicado Caderno Mulher
Jornal Agora
18/09/2010

700 metros e Muitas Reflexões

Para baixo todo santo ajuda. Nem sempre. A demorada operação de resgate dos mineiros presos no Chile, acompanhada pelos holofotes do mundo, demonstra o quanto ocupamos uma terra insondável e nos coloca – ou deveria colocar - em nosso devido lugar. Somos pequenos, frágeis e impotentes diante da Natureza e de suas forças.

A vaidade humana constrói prédios com mais de 700 metros de altura, pretendendo riscar o céu e impor seu domínio. As ilusões de poder continuam fascinando a humanidade. O ser humano é capaz de ir a Lua, viajar a velocidade do som (1224 km por hora), mas só consegue avançar poucos metros por dia na perfuração do solo. Longos meses serão necessários para que as máquinas vençam apenas 700 metros, sete quarteirões – menos de um quilômetro do chão que está sob seus pés.

Loucamente, fabricam-se bombas atômicas para exterminar num segundo uma cidade inteira, armazenam-se arsenal capaz de explodir o planeta inteiro, mas não conseguiram produzir a máquina eficiente para perfurar o solo profundo rapidamente. A Terra é insondável, sólida, densa e internamente chega a ser tão quente quanto o Sol. Explorada, bombardeada, não se vinga e nem dá troco: não é este o espírito da mãe natureza. Ela apenas reage, recompondo sua força e forma. Nunca, jamais, é sorrateira: como mãe amorosa, quando desrespeitada sempre dá muitos sinais de alerta, antes de drástica reação.

O episódio chileno possibilita muitas reflexões. Pensar sobre a dimensão da Natureza e o quanto precisamos conhecê-la e respeitá-la. Como os rios, oceanos e montanhas, a mina chilena deu avisos de que iria iniciar um processo de se recompor. Mas, como costuma acontecer, a mãe-natureza não foi ouvida: o desrespeito arrogante persistiu até o desastre se concretizar.

Há um lado positivo para redimir um pouco nossos tão falhos comportamentos humanos. O pequeno grupo de mineiros retido demonstra qualidades ímpares: se mostram unidos, organizados, resistentes e capazes de lidar com o infortúnio com serenidade. Dão um exemplo do quanto a dureza do trabalho rude pode aprimorar o espírito humano. O serviço penoso que os mantém fisicamente sujos parece ter aprimorado virtudes: solidariedade, capacidade de superar frustrações, resistência a privações. A pele engrossada e as unhas sujas brutalizaram os corpos, mas em muito podem ter ajudado a aprimorar suas almas.

A humanidade evolui mais fazendo forçados trabalhos do que aboletada em funções abusivamente remuneradas. É mais fácil evoluir na privação do que na abastança. O efeito provocado pelos excessos de conforto e luxo vem sendo demonstrados em diários maus exemplos dos seguimentos mais poderosos da sociedade. Paradoxos que merecem reflexão e mudança de paradigmas.

Publicado Caderno Mulher
Jornal Agora
04/09/2010

sábado, 21 de agosto de 2010

Quintal do Vizinho

Outra vez nos chega, de presente, container de lixo vindo do outro continente. Países que nos consideram de categoria inferior, que impõem barreiras alfandegárias severas a nossa gente, remetem seu lixo sorrateira e criminosamente. Comportam-se como aqueles vizinhos selvagens, que jogam dejetos para o quintal do lado imaginando que moscas, mosquitos e ratos respeitarão o muro de suas casas. O caso acontecido nesta semana, reprise de filme visto recentemente, resulta do encontro de inescrupulosos de vários países. Espertamente, fizeram uma negociação na qual todos venderam: uns venderam o lixo, outros venderam o transporte e outros venderam o lugar em que vivem e todos venderam sua almas por um negócio realmente muito sujo. Por ganância, para ter lucro fácil e rápido, intoxicaram um pouco mais nosso já sofrido meio ambiente. Mais grave do que a reincidência do achado é a desconfiança de que o descarte internacional venha acontecendo há largo tempo e só raramente seja detectado, tornando o negócio menos arriscado e ainda mais lucrativo.

Pensam que há vários planetas? Que mandando para o outro lado do oceano, o lixo desaparecerá e o problema ficará resolvido? O que precisa acontecer para que se desfaçam as ilusões nacionalistas e que o mundo todo assuma o compromisso de preservação ambiental? Quanta incapacidade de ver a Terra como a casa de todos. Os sinais claros e dramáticos da mudança climática em andamento parecem não ser suficientes para despertar a consciência planetária.

Por todos os cantos pulsam transformações agudas: maremotos, enchentes, grandes incêndios, temperaturas chegando a extremos de frio e de calor em vários países. Oceanos bombardeados por resíduos vão levando a extinção da flora e fauna ali existentes. Migrações de populações por questões ambientais vão se tornando freqüentes. Tudo filmado, fotografado, documentado para os olhos que queiram ver. Os excessos do consumo, que continuam sendo cega e irresponsavelmente estimulados, associados à total ausência de comprometimento com ações responsáveis de cuidado ao meio ambiente antecipam e agravam tragédias. O lixo mais do que compõe o cenário, é questão vital, envolve a saúde das pessoas e a sobrevivência do planeta. Deveria ser pauta preferencial dos agentes públicos, jamais poderia fazer parte de negociações meramente comerciais ou de financiamentos políticos partidários. É sério demais para ser trocado por patrocínio, tornado refém de interesses especulativos e financeiros.

Um impressionante vídeo da Discovery demonstra a estrutura do planeta e compara: se a Terra fosse uma laranja, nós ocuparíamos apenas a casca. Abaixo da sutil faixa que ocupamos, o resto são camadas insondáveis, tal sua densidade e temperatura. Essa casquinha de laranja é todo o ecossistema que nos permite viver e que está sendo duramente castigado. Por isso, que ninguém pretenda sacudir os ombros ou lavar suas mãos. O problema é nosso e temos que encará-lo: que se investigue profundamente o tráfico de lixo e que se puna de modo exemplar, tornando-o um péssimo negócio.
Publicada Caderno Mulher
21/08/2010

domingo, 8 de agosto de 2010

O Sumiço dos Ouvintes


Com nostálgica saudade, recordo os tempos do rádio, quando a TV ainda não existia e o universo do imaginário era povoado por vozes e sons. Eu ouvia o Repórter Esso, cuja voz se sobressaia aos chiados do rádio de válvulas. Era pequena demais para entender o significado das noticias, mas me encantava com o aparelho – em madeira caprichosamente arqueada e com uma voz misteriosa saindo por entre a tela tramada de tecido e filetes metálicos. O mesmo sentimento de doce nostalgia me envolve quando recordo a eletrola grande da sala de casa e os momentos em que, muito miúda, saboreava escutar as histórias infantis dos pequenos discos coloridos de vinil. O som enriquecido de ruídos de fundo me levavam a uma viagem imaginária encantadora. Aquela era uma época em que se dava ao cérebro o trabalho de imaginar, de criar as imagens e também o tempo necessário para refletir sobre as palavras e seus significados. Éramos todos – crianças, jovens, adultos e idosos – ouvintes treinados: o entretenimento mais prazeroso nos entrava pelos ouvidos e fazia desta uma via importante de nossa sensibilidade. E as pessoas conversavam, proseavam muito.

Com o advento da televisão, rompe-se a primazia do som e entramos na era da imagem, com efeitos muito diferentes e, em alguns aspectos, bastante adversos. Enquanto para ouvir precisamos de atenção, sem a qual o som nem é captado, ver televisão exige apenas a presença de nossos corpos: diante do aparelho nos tornamos pateticamente hipnotizados por imagens e mensagens subliminares de todos os gêneros. Não precisamos fazer nada, nem pensar. O aparelho inaugurou a era da distração, que progressivamente invadiu todos os momentos da vida com cada vez maior número de aparatos de imagem. Em qualquer situação, nossa atenção é seqüestrada por estímulos visuais, capturada de mil modos e grande é o esforço necessário para resistir a tantos apelos.

De ouvintes atentos que em maioria éramos, nos transformamos em falantes distraídos. Esse é o mundo dos falantes – inclusive as máquinas. Somos “atendidos” por gravações e dialogamos com terminais eletrônicos e falamos com códigos: disque 1 para isto, 2 para aquilo, 3 para aquilo outro; conversamos com números. Os diálogos estão se tornando monólogos coletivos nos quais todos falam, falam, falam, sem que alguém se coloque na condição de ouvinte. Está cada vez mais difícil ouvir e ser ouvido.

Se nas situações pacíficas e harmoniosas, a falta de escuta é constante, nas cenas de conflito a possibilidade de alcançar entendimento por via do diálogo beira o impossível: ninguém quer ouvir a parte contrária. O importante é preservar a trincheira de seu ponto de vista. A comunicação é feita no modelo bombardeio. Cada um usa a munição que tem em mãos e, diante da bandeira branca da parte contrária, aproveita-se a brecha para recarregar as armas e achar um ponto vulnerável do interlocutor, tornado adversário.

Estão sumindo os ouvintes, acabaremos todos falando com as paredes.

Crônica Publicada no Jornal Agora, Caderno Mulher
dia 07/08/2010