sexta-feira, 14 de maio de 2010

O CULTIVO DA TRANQUILIDADE

             Não faz nenhuma diferença o que nós fazemos;
 o que importa é como nós fazemos qualquer coisa.
E como sempre há algo sendo feito,
 nós sempre temos a oportunidade de fazê-lo corretamente.
 Robert Crosbie


      O tempo parece-nos na maioria das vezes curto o suficiente para justificar a agonia de fazer tudo rápido, de um jeito qualquer, dispensando caprichos e reflexões que exigiriam mais alguns minutos. Escoando no atropelo, vamos alinhavando uma vida sem debruns e acabamentos. Deixa-se de lado o que parece à primeira vista ser dispensável, utilizando um critério de escolha que prioriza rapidez e sacrifica todos os demais quesitos. E sobe a pressão arterial aos solavancos de um viver turbinado de afazeres.

     Fazemos as coisas sem nelas pensar, sem que nossa mente se permita sedimentar decisões, questionar sentidos e significados. Muito do estresse cotidiano e de suas conseqüências pessoais e coletivas é fruto desse tocar a vida ao ritmo de urgências fabricadas. A agitação física e mental estabelece um turbilhão de pensamentos simultâneos que turvam a atenção e sobrecarregam nosso sistema de raciocínio. Cansamo-nos mais, atrapalhamo-nos desejando abarcar vários assuntos num só ato. E pior, prosseguimos deixando coisas caírem pelo apressado caminho de nossa existência.

     Entretanto, por mais que sejam atravessados momentos ou situações agitadas, a mente tranqüila sempre será mais capaz de buscar e encontrar as melhores alternativas, abreviando esforços e frustrações. Nossas ocupações podem ser adequadamente cumpridas na cadência dos dias, sem a necessidade de nos preocuparmos com o que possa eventualmente deixar de ser feito. O tempo mostrará se o que foi deixado para trás fará ou não falta. Na maioria absoluta das vezes, as pequenas falhas cotidianas não se transformarão em perdas irreparáveis.

     Podemos fazer muitas coisas se nos permitirmos dar um passo de cada vez, um após o outro, sem nos desviarmos de metas propostas e procurando sempre a melhor forma possível. Com o pensamento liberto das pressões desnecessárias, conseguimos olhar a vida saboreando suas cores, seus sabores e principalmente estabelecendo importância adequada a cada momento.

     A tranqüilidade é o fruto maduro de uma atitude de viver caprichosamente germinada nos pequenos atos e nas situações banais do dia a dia. Tranqüilidade se cultiva, com zelo e cuidado persistentes; não se compra pronta e nem se engole em capsulas. Quando se alcança tal equilíbrio, se descobre uma serenidade profunda e duradoura, jamais conquistada com a química dos remédios.

     Retornando às palavras iniciais de Crosbie, o que importa na vida é o modo como fazemos as coisas, independente de serem simples ou complexas; rotineiras ou não. O fundamental é caprichar, fazer bem feito e, como a pressa sempre foi inimiga da perfeição, manter sempre a calma e a preservar a tranqüilidade. 
                                                             Publicado Jornal Agora 15maio2010


domingo, 9 de maio de 2010

Reflexões sobre o rascunho publicado

     A minha crônica anterior foi publicada na versão de rascunho. Se tivesse o trabalho sido produzido em papel seria quase impossível confundir coisa com outra: riscos e flechas alertariam de que aquele texto não estava “limpo” para ser lido por outros olhos que não os meus. Como sempre faço, só enviei a crônica quando dei por concluído o trabalho, depois de lidas, relidas, cortes e recortes. Costumo ir tecendo idéias, alinhavando aqui e acolá e depois faço a redução necessária para ajustar o texto ao espaço da coluna. Entretanto, nestes fulminantes tempos virtuais, basta um toque de dedo para se cometer um equívoco e, no caso em questão, multiplicar seus efeitos por milhares de exemplares da edição do jornal. Acabei enviando à redação o arquivo que fora rascunho. Não há no texto palavras ou expressões a serem corrigidas. Só por vaidoso preciosismo republicaria o artigo, em sua versão correta.

     O erro, portanto, foi meu e não transfiro essa responsabilidade. Já basta aos leitores terem que suportar as constantes notas de “não fui eu que fiz”, “não era do meu conhecimento” ou os “a bem da verdade”. Nunca fiz e não vai ser com cabelos prateados que passarei a fazer parte da grande turma dos que se esquivam de responsabilidades, mas não os condeno. Consigo entender as causas de tantos maus exemplos e foi este o assunto que brotou de minhas reflexões. Vivemos os tempos do “recall”, termo que nos é imposto sem tradução por variadas empresas, encobrindo erros graves de fabricação de seus produtos. Como a expressão é para inglês ler, engolimos os chamados para consertos como se fossem gentis e cuidadosos agrados dos fabricantes. E seguem os autores anônimos construindo coisas que estragam, deixando serviços mal feitos ou pela metade, fornecendo dinheiro que rechear as roupas de políticos.

     Por outro lado ou talvez por inspiração em tantos modelos negativos, dotados de auto-estima e autoconfiança exacerbadas, é fácil observar que as pessoas estão ficando cada vez mais auto-indulgentes. Desculpam a si mesmas e não se constrangem ou acham necessário explicar suas faltas. Paradoxalmente, parecem cada vez mais exigentes e intolerantes com falhas alheias. A mesma pessoa que estaciona em fila dupla ou na vaga de portadores de deficiência, por exemplo, se exaspera com a mínima demora num sinal de trânsito, protestando com nervosas e grosseiras buzinadas.

     Mas todos desejamos um mundo melhor, menos violento, mais amoroso e pacífico, não é mesmo? A questão dos erros, nossos e alheios, tem bastante a ver com harmonia e entendimento. Medidas bem simples podem ser tomadas individualmente para melhorar a situação crítica que hoje sofremos. Pois para finalizar trago uma sugestão colhida em sabedoria muito antiga, que diz mais ou menos assim: tenha em mente que a perfeição lhe é impossível, mas exija sempre o máximo de si mesmo, buscando fazer o melhor que estiver ao alcance de seu esforço; porém desenvolva a tolerância e compreensão em relação a erros e falhas alheias. Recomendação aparentemente curta, cuja prática exige persistência, mas tem efeitos positivamente revolucionários para quem a adota.
                                             (publicada Jornal Agora - março 2010)

ADMIRAVEL MUNDO NOVO

     Os arroubos da arrogância juvenil, outrora reprimidos com severidade, são atualmente estimulados. Esta é uma cultura que mal educa suas crianças e jovens, aos quais tudo concede, releva e perdoa. Enquanto o mundo vai sofrendo problemas cada vez mais complexos e o horizonte vai se tornando mais sombrio e ameaçador, continua-se a embalar o berço para que o ninho não se esvazie e siga a juventude com ilusões eternas, enquanto durem. Num contexto desses, é até natural que assuntos do âmbito da família ou da escola tenham que ser decididos por legisladores. Só com lei se imagina restituir a ordem no universo caótico que foi estabelecido. Amarga ilusão... As coisas não chegaram aonde estão por obra do acaso, por meras casualidades. Esses moços, pobres moços, que acham que defendem sua liberdade ao pretenderem usar celular e internet 24 horas por dia, desfrutar todos os diretos da vida adulta sem as consequentes responsabilidades, não sabem o quanto estão indo para o inferno à procura de luz, como diria o sábio Lupicínio Rodrigues.

        Os recentes debates em torno do porte e utilização de celular em sala de aula, faz pensar que poderia ser motivo de semelhante discussão o uso do aparelho em salas de concerto, cinemas e palestras. Afinal, foi muito bem implantada na mente coletiva a idéia de que há uma indispensável necessidade de estar sempre conectado, pronto a receber e transmitir mensagens, independente da importância ou urgente pertinência do assunto. Vivemos hoje numa sociedade controlada pela febre do consumo, sedada por programas televisivos alienantes. Faz-se tudo, menos pensar, refletir, decidir, afinal uma das primeiras vítimas sacrificadas pelo novo sistema foi a Filosofia. Só com o êxodo do raciocínio reflexivo e do hábito de leitura pode ser o mundo dominado pelas ilusões hipnóticas da propaganda e da moda.

        Estamos seguindo o roteiro do Admirável Mundo Novo, no qual o genial Aldous Huxley anteviu nosso presente nos distantes anos de 1930. Logicamente a roupagem era diferente, como seria mesmo se o autor tivesse atualizado seu livro dez anos depois de escrevê-lo, como ele reconheceu em uma edição apenas dez anos posterior, mas ele preferiu respeitar a obra original, deixando-a intacta a remendos. O Mundo Novo de Huxley era dividido rigidamente em castas, convenientemente identificadas por cores, cumprindo um destino definido antes da concepção – feita sob encomenda em tubos de ensaio, sem a participação das perturbações de paixões ou romances. Tudo ficava sob rígido controle do estado. Não foi preciso tanto trabalho para estabelecer um mundo “dominado”. O senhor deste Admirável Mundo Novo não é um estado mundial mas o tirano senhor mercado – que comanda todas as coisas, estabelecendo a ordem das necessidades. As famílias continuam existindo, mas se esvaziaram de suas funções, perderam o poder de sua importância. Seus filhos estão entregues aos representantes do mercado, às macaquices da moda e seus modismos. Já antes de nascerem as crianças são preparadas para o mundo do consumo, pois acima e antes de serem humanos, são potenciais consumidores.

      O mundo da ilusão lúdica mantém a hipnose coletiva de que a vida é feita para se comprar, tudo está ao alcance do dinheiro que se disponha e esta é a única forma de ser feliz. Precisamos precisar, somos a medida do que desejamos. Pouco importa o que somos, mas o que temos ou no mínimo o que aparentamos ter. O “Admirável” Mundo Novo está ai, sendo sacudido por transformações geológicas. É tempo de despertar, de voltar a separar o que importa na vida, do que é secundário; de reaprender a pensar. Hora de acordar: talvez seja este o recado da mãe Terra.
                                            (publicada Jornal Agora - março 2010)

Da Psicologia para o Oceano da Teosofia

“Quando a gente tem uma meta clara e elevada, e ela não é imediata nem estreita, não nos abalamos muito com coisas pequenas de curto prazo, sejam elas 'agradáveis' ou 'desagradáveis'. “ Carlos Cardoso Aveline


Nos 33 anos de formação e enlace com a profissão, estudei várias escolas teóricas, cumpri um longo percurso de descobertas, muita gratificação e alguns punhados de frustrações, que hoje não fazem conta. Quatro meses se passaram desde que encerrei as atividades da clinica de psicologia. Não fiz uma despedida formal e acabei dispensando a comunicação pública do fato. Contra todas as opiniões contrárias, retirei de mim o manto da Psicologia, desvinculando-me de todas as referências e teorias psicológicas, retomando a plena liberdade de meu pensamento.

Foi uma decisão pensada, refletida com profundidade e comunicada a tempo para as pessoas que estavam sendo por mim profissionalmente assistidas. Durante os últimos meses de trabalho me surpreendi com o espanto que minha atitude provocava em muita gente. Parecia algo inacreditável, um completo absurdo que eu decidisse deixar a profissão. Meus pacientes de então percebiam que eu continuava com agenda lotada, indo “muito bem e muito obrigada” com meu trabalho. Talvez por isto o espanto tenha sido ainda maior. Estaria eu doente ou iria rumar para distantes paragens? A maioria me questionou o que eu pretendia fazer, já que a idéia da aposentadoria lhes era chocante.

Eu sabia o que estava fazendo: encerrava uma etapa importante de minha vida, que fora muito gratificante, mas que intuía ser momento de concluir. Tinha clareza de que desejava me libertar dos ditames da profissão, mas não a clarividência do rumo a tomar a partir de então, por isto, diante dos questionamentos, brinquei com hipóteses: disse que aproveitaria o tempo para andar de bicicleta ou simplesmente nada faria, permitindo-me o ócio dos desocupados.

Despojei-me dos gastos sapatos da longa caminhada, doei meus livros e tudo o mais da antiga profissão, com a alma leve e a consciência tranqüila do dever cumprido. Essa voluntária renúncia me permitiu desfrutar a valiosa liberdade de percorrer outros espaços, de beber conhecimentos de outras fontes. Passado pouco tempo, foram surgindo claros os sinais que anunciavam uma nova vida.

Aos sair das trilhas da Psicologia fui viajar sim, mas para o universo distante de novas leituras, foi quando se descortinou diante de mim o Oceano da Teosofia, a milenar Psicologia Asiática, muito anterior a Freud, seus discípulos e seus opositores. Em verdade, foi um reencontro, pois eu já lera pequenos ensaios do assunto quando era muito jovem, antes de ingressar nos estudos da faculdade de Psicologia. A Teosofia oferece a fonte do conhecimento ancestral, transcendente, remetendo para leituras muito antigas, eternas, sempre atuais em seus significados. Mas não se resume às palavras, pois é, acima de tudo e de qualquer palavra, uma atitude vital de altruísmo, de despojamento dos pensamentos ego centrados e de permanente compromisso ético e fraterno. Pode parecer que seja um mundo de sacrifício, mas é o caminho para a duradoura felicidade.
                                                (publicada Jornal Agora 01maio2010)

sábado, 12 de dezembro de 2009

USURARIOS MODERNOS

     Em função dos estímulos ao crédito e do conseqüente aumento da inadimplência, frequentemente se fala do comportamento perdulário das pessoas que gastam compulsivamente. Na via contrária, os muito econômicos têm sido elogiados, quando isto remete a um projeto de gasto maior, uma organização de orçamento que seria a receita para um futuro de sucesso financeiro. A usura, economia obsessivamente neurótica, é pouco falada, talvez por parecer em extinção num mundo de febril consumismo. Entretanto, há uma formatação pós-moderna de usurários que está em franco crescimento.


    No estilo antigo, usurário era um tipo esdrúxulo: dono de sabida riqueza, vivia em condição miserável. Passava a vida ostentando trajes puídos, sapatos furados, comendo pão dormido a várias noites, tudo para amealhar ainda maiores economias. Seu estilo rústico, nos casos mais extremos, trazia odor característico da economia de água do banho e da falta de lavagem de suas desgastadas roupas. Usura era coisa notória, feia, indisfarçável. Alguns, por ironia ou por uma lição vinda da justiça divina, acabavam no final da vida descobrindo que sua fortuna se transformara em papel ou virara pó, pois alimentara as traças de seu colchão. Tão preocupados em segurar seus tostões, esqueciam de fazer o dinheiro circular, renovar as cédulas e atualizar seu valor. Passavam a vida como pobre e acabavam morrendo em cruel miséria.

    Nesta tecnológica pós-modernidade essa usura clássica foi sendo substituída por um comportamento de tipo misto. A combinação acontece em pessoas que, dotadas de sabida fortuna ou razoável acumulação financeira, se comportam de modo extremamente econômico em alguns momentos e noutros agem como pródigos gastadores. Economizam moedas, se regozijam de pedir desconto em valores ínfimos, sem perceber os efeitos e a deselegância de tal ato. Sua atitude faz parte de seu estilo de vida, amparada na ilusória justificativa de que é assim que se tornaram e se sustentam ricos. No instante seguinte, gastam valores absurdos em compras supérfluas. São perfumados usuários de grifes sofisticadas, hotéis de luxo, restaurantes muito caros. Comem e consomem de tudo o que é caríssimo, mas se sentem assaltados com o custo de uma consulta médica, de um tratamento dentário, da mensalidade da escola dos filhos.

     O usurário-perdulário faz seu dinheiro circular, redistribuindo seus recursos através de seus gastos, nisto é socialmente melhor do que o modelo antigo. Às vezes, se diz seguidor do que considera ser uma visão budista da existência, acha que o Universo está ocupado unicamente de conspirar a seu favor, reza o mantra do “venha a mim o Vosso Reino, mas seja feita a minha vontade”. Tudo gira ao redor do umbigo de seus desejos. Para ele há uma lógica dupla que rege a sua vida e a alheia: para si, tudo de bom, do melhor, do mais caro; para o outro – o que sobrar. Como acha que nada está sobrando, pois tudo o que possui pode vir eventualmente a lhe fazer falta, nega com genuína naturalidade os pedidos de ajuda ou colaboração, independente do mérito da causa ou do grau de dificuldade alheia.

     Seu raciocínio econômico não tem pé na lógica matemática e nem cabeça em conceitos financeiros, pois é guiado pelo nexo de uma visão egocêntrica. Essa característica costuma se tornar aparente nesta época natalina, quando muitos pedidos de apoio lhe são dirigidos. Evidentemente, coisa que um usurário-pródigo não suporta é ter que doar qualquer coisa. Doe-lhe corpo e alma ter que dar sem receber. É bem característico que seja avesso a atos de generosidade, pensa que é pobre quem quer e rico quem merece. Quando é abordado com algum pedido, parece estar tendo um chilique, transborda em queixas de suas grandes dificuldades financeiras. Sem pudor fala de suas despesas, para no momento seguinte, com igual falta de constrangimento comentar como pagou caro para tomar água mineral em Dubai. Chora tanto o custo do IPVA de seu novo carro novo ou o valor do imposto de renda a pagar, que desperta até pena. Quem vai lhe pedir ajuda corre o risco de acabar se sentindo tão tocado que acabe por lhe oferecer algum empréstimo.

     Essa atitude contraditória em relação ao valor do dinheiro era retratada de modo cômico num antigo quadro humorístico, que encenava o encontro do primo rico com o primo pobre. O que na época soava absurdo e por isto nos fazia rir, hoje está se tornando freqüente o bastante para ser considerado “normal”, não fazer graça e nem ser observado. Pois fica a reflexão para que não prolifere ainda mais esta forma anti-social e anti-solidária de se relacionar com o dinheiro.

publicada Jornal Agora
Caderno Mulher
12/12/2009

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

TRAIÇÕES DA MEMÓRIA

     Esquecer o nome de alguém, ou nem conseguir se lembrar de quem se trata a pessoa, pode ser bem constrangedor, nos fazendo ficar à deriva numa conversa que soa interminável. Enquanto nos digladiamos escrutinado a memória sem conseguir localizar afinal de onde vem a criatura, ela continua a nos falar animadamente de nossa vida, demonstrando ser alguém íntimo e familiar. Coisa bem terrível e, no entanto, não tão rara.


     Mais complicado é quando se esquece o aniversário de uma pessoa amada. Isso costuma gerar amargas cobranças e prolongados ressentimentos, sendo interpretado como fruto de desconsideração ou prova de falta de amor.

     Nos ingênuos tempos da brilhantina, o máximo de trauma familiar era se esquecer de buscar os filhos na escola. Fato acontecido com muita gente de boa índole e coração amoroso. A criança acabrunhada, beiçuda, cabisbaixa ou em choro inconsolável, acompanhada por uma professora de braços cruzados, sobrancelhas em riste e semblante de reprovação, esperava quem, esbaforido, descabelado e coberto de vergonha, chegava atrasado para buscar o aluno após o horário estabelecido. Inútil era buscar qualquer explicação que justificasse a constrangedora falha, colocada na condição de indesculpável. Dependendo da fragilidade subjetiva, a situação poderia fazer marca e se tornar uma catástrofe psicológica na vida da criança ou apenas fazer parte do anedotário das situações familiares, coisa a ser recontada com ares de graça em fases bem posteriores da existência.

     Nesses tempos mais recentes, entre tantas coisas inconcebíveis, surgiu um tipo de esquecimento até então impensável. Crianças bem pequenas, na maioria das vezes bebês, morrem por serem esquecidos dentro do carro. O espanto indignado dos primeiros casos levou a que fossem tratados como suspeitos de filicídio. A repetição fez deixar claro que este tipo de tragédia não era gerado por um desejo inconsciente de matar, mas por uma falha, um cruel lapso de memória. O roteiro dos casos relatados traz um dado unânime: a mudança de rotina fez com que fosse esquecida a passagem e o desembarque da criança na escolinha.

     O ato de levar os filhos para a escola ou para a creche é algo tão automático quanto o escovar os dentes, feito sem cerimônias ou mesmo qualquer forma comunicação. É quase uma entrega, feita às pressas, com o carro mal estacionado, às vezes até no meio da rua. Enquanto a criança vai sendo despejada, o pensamento continua conectado com os quefazeres do cotidiano. Na memória esse tipo de tarefa repetida diariamente fica arquivado entre atos automáticos, aos quais não se precisa dedicar atenção por ser feito “naturalmente”. Aí reside o perigo – agora mais uma vez dramaticamente confirmado. As crianças que já caminham ou falam tem recursos de autodefesa para se desvencilharem, mas os pequenos são completamente reféns da atenção alheia.

     As falhas da memória encontram na psicanálise explicações quase canônicas, associadas a motivações do imperativo inconsciente, senhor de todas as causas. Por esta leitura sempre sobrarão suspeitas para nossos lapsos ou motivos submersos trazidos à tona pelas falhas de nossos atos.

     O arquivo de nossas vivências é poderoso e complexo, mas por mecanismos neurofisiológicos ou por motivos inconscientes está sujeito a entrar em colapso diante das sobrecargas, das chuvas e tempestades que nos castigam. A valiosa memória é capaz de nos trapacear, de bloquear conteúdos importantes, embaralhar lembranças, acrescentar elementos inexistentes (falsas memórias) ou sofrer breves panes. Pequenas falhas, mínimos esquecimentos, podem acabar tendo grande efeito e até resultar em tragédias. Precisamos assumir que a memória não é 100% confiável, como gostaríamos que fosse.

     Saber disto talvez ajude a ter maior tolerância com os esquecimentos cotidianos mais banais – que não precisão ser tão dramatizados - e ter um redobrado zelo diante de situações que insistentemente tem se revelado gravemente perigosas, tragicamente fatais.

Publicada no Caderno Mulher
Jornal Agora 28/11/2009 

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

A BARBARIE DA SAIA CURTA

      Pouca gente poderia imaginar que saia curta fosse capaz de provocar alvoroço. Afinal de contas, por estas bandas do equador, corpo nu está disponível sem censura em qualquer lugar. Desnudas e provocantes circulam na tela de TV e fora dela. Atitudes de sensualidade levemente vulgar ou explicitamente grosseira fazem parte da performance de mulheres famosas em propagandas de todo tipo de produto. Qualquer motivo é pretexto para liberar geral, corpo e libido, antes, durante e depois do carnaval. Sem falar nas letras de músicas ou das danças de conteúdos explicitamente sexuais, como aquela “na boquinha da garrafa” que por algum tempo podia ser tocada e dançada por toda gente até em festas infantis.


    Pois num contexto destes, como não se espantar com o escândalo provocado por uma moça de pernas de fora no ambiente jovem de uma universidade? Reflito sobre o fato, imaginando os atos a partir dos fragmentos divulgados mundo afora:

ATO 1:

    A cena não foi de improviso. Dá para imaginar que a preparação possa ter começado bem antes. A moça, moradora em pobre periferia, demoradamente escolheu seu melhor traje. Cheia de faceirice, mirou-se de cima a baixo sorrindo para o espelho, virou-se de um lado e de outro, até se olhou de costas. Achou que estava linda e maravilhosa em seu vestido vermelho, justinho e curtinho como lhe parecia ser adequado à ocasião. Fazendo caras e bocas, mandou beijinhos para si mesma e saiu confiante de que iria abalar a torcida. Rebolando e fazendo pose sentia-se a última bolachinha do pacote, a coca-cola do deserto. Afinal, estava vestida para festa, do jeito e da maneira com poderia ir aos populares bailes funkes, tão comuns na zona em que mora. Entre o ambiente da universidade e a pista de dança não havia muita diferença para sua cabeça alourada pela química comprada a pouco preço na farmácia do bairro.

ATO 2:

    Seria um dia como outro qualquer na universidade que se segura no modesto 159º lugar entre as 175 universidades do país. Tudo estava normal até que a turminha solta dos corredores reparou na figura destoante e logo foi deflagrando comentários, cutucões , risadas e reações que foram se fortalecendo em eco.

    No burburinho, ninguém pareceu ter outra coisa a fazer ou pensar a não ser se envolver na baderna formada. No inicio, o movimento deve ter aguçado ainda mais a exibição da garota de periferia, que interpretou o nervosismo geral como sinal evidente de seu sucesso: estava abalando as estruturas – as grosserias verbais lhe eram formas de elogio familiar, fazem parte do refrão de músicas bastante tocadas. Mas o grupo foi tomando corpo e adquiriu outro senso e ânimo. Em efeito de maré, a onda ganhou força e da marolinha maldosa de alguns se tornou uma tsunami violenta de gente irada e enlouquecida. A multidão feita em corpo e coro encontrou ali sua Geni e passou a cuspir-lhe ofensas mais agressivas e lhe jogar todas as pedras. Assim como um dia jovens incendiaram um índio porque o confundiram com um mendigo, desta vez apedrejaram a estudante porque acharam que, pela roupa e pelos gestos, seria uma prostituta e isto autorizaria que contra ela qualquer coisa pudesse ser dita ou feita. A coisa virou um playground de adolescentes que queriam simplesmente se divertir com o fato novo do momento. Como não surgiu o grupo do deixa disto, os poucos anjos da guarda de plantão tiveram que recorrer à intervenção do agente de autoridade policial para impedir que a coisa chegasse ao nível de selvageria.

   O primeiro ato retrata a dificuldade da jovem de discriminar diferenças necessárias, algo muito freqüente nas pessoas em geral, mas muito especialmente em quem ainda tem pouca experiência na vida. Houve uma ingenuidade maliciosa em suas atitudes provocativas, o que enseja uma mistura de um punhado de culpa e uma porção de inocência. Infelizmente a notoriedade do caso poderá reforçar ainda mais o lado exibicionista da moça e dificultar sua busca por formação universitária.

    Já o ato seguinte, o movimento coletivo não me parece fruto de uma intenção moralizadora, mas simplesmente ensejado pelo espírito de brincadeira sádica. Do grande grupo, apenas uns eram os protagonistas, tinham a intolerância e a maldade conscientes, os demais foram meros figurantes, agindo sem se darem conta da gravidade de suas atitudes e confirmando o quanto podem ser potencialmente perigosos ânimos exaltados em ajuntamentos humanos.

    Entre inocências e culpas, a situação enseja uma autocrítica coletiva necessária, que nos provoque interrogações a serem respondidas: que jovens estamos criando? Aonde temos coletivamente errado para fragilizar tanto a formação subjetiva, emocional, afetiva, moral de nossa juventude? Quando o ambiente universitário é palco de uma situação de tamanho excesso de intolerância, que poderemos esperar de nosso futuro?
publicado caderno mulher
Jornal Agora
14/11/2009