quarta-feira, 23 de setembro de 2009

PAC VERSÃO F

Publicado Jornal Agora
Caderno Mulher Interativa
21/06/2008 
    Para quem tem filhos que cresceram, estão adultos, mas pensam ainda serem adolescentes está sendo lançado o PAC – v.F: Programa de Aceleração do Crescimento, versão Familiar. Trata-se de uma ferramenta de gestão para mudança de hábitos e rotinas domésticas e familiares com vistas à correção tardia de erros educativos e aceleração do amadurecimento de filhos adultos – que deveriam ser chamados de adultocentes.


    O primeiro item do PAC – v.F, talvez o mais importante, trata da definição dos atores sociais, que são divididos apenas em dois grupos: os gestores – também conhecidos como mantenedores ou provedores – que são aqueles que financiam as despesas, e os usuários – que são todos os que não compõem o grupo anterior, por não participarem com recursos de custeio. Desta forma: os pais são os gestores e os filhos são usuários. Ficou claro?

     O segundo item trata do sistema de gerenciamento que passa a ser autocrático, antidemocrático e antipopular: manda quem pode pagar e obedece quem quer usar. O direito de voz é mantido, mas o de voto ficará facultado a situações excepcionais, sempre respeitando as autoridades constituídas.

     O novo sistema reproduz todas as forças e pressões que a realidade extrafamiliar imporá aos filhos, quando saírem do ninho. O PAC- v.F é um verdadeiro treinamento de ponta, de alto nível, modelado para total eficiência de resultados, com mínimos custos.

     Implantados os itens 1 e 2 , o passo seguinte é estabelecer a jurisdição e um novo zoneamento nos direitos e deveres de ocupação. O território do PAC- v.F é a casa, dividida por zonas identificadas facilmente por cores. A Ala Vermelha é a de entrada, antigamente conhecida como sala de visitas – na época em que o espaço era sagrado apenas para esses seres de comparecimento esporádico e trato formal. Nos espaços exíguos residenciais de agora o cômodo passou a ser nomeado de sala e costuma ter ocupação multiuso. Entretanto, devido a continuar sendo o lugar de entrada dos menos íntimos, a Ala Vermelha deverá ser mantida permanentemente em ordem de limpeza e higiene. Não serão ali permitidas: roupas, utensílios de cozinha, comidas, etc. A zona seguinte é a Ala Verde: composta por todas a áreas de uso coletivo, principalmente cozinha e banheiro. Esses espaços de circulação serão mantidos em permanentes condições de pleno uso e conforto de todos. Para preservação ambiental, as Alas Vermelha e Verde serão fiscalizadas diariamente pelos gestores, sendo passíveis de sanções caso encontradas falhas de manutenção. A última é a Ala Amarela, de uso privativo de apenas um ou alguns ocupantes: quartos ou banheiros privativos, que terão fiscalização opcional. Esses espaços são de uso exclusivo dos atores sociais acima descritos, sendo que pernoite de outros figurantes só poderá ocorrer com expressa permissão dos provedores. Aos ocupantes será concedida a opção de fiscalização dos aposentos, o que poderá resultar em bônus extras por bom ajustamento de conduta, mas também em multa, caso sejam encontradas falhas. Mesmo a fiscalização sendo opcional, a Ala Amarela não poderá exalar qualquer forma de poluição para as demais zonas.

     O PAC- v.F contém uma série de outros desdobramentos, mas apenas na forma básica acima descrita já surtirá uma revolução suficiente para que a ordem volte ou os incomodados cresçam e se estabeleçam com vida própria e orçamento independente.

DR. BENZETACIL E A TOLERÂNCIA ZERO

Publicada no Jornal Agora
Caderno Mulher Interativa
05/07/2008

      Havia um médico que passou a ser chamado de dr. Benzetacil, por prescrever sempre o mesmo remédio a todos os seus pacientes. Indiferente à queixa apresentada: de unha encravada a problemas intestinais, passando pelas dores no peito e na alma, a receita era sempre o santo Benzetacil. Pois a lei da tolerância zero é a lei do dr. Benzetacil: incapaz de separar o uso do álcool, do seu abuso e da doença crônica - alcoolismo, negligenciou o diagnóstico e prescreveu a todos o mesmo amargo e errado remédio.


     Há uma evidente distorção no sistema que se atém a punir severamente quem a nível sutil atravessa a margem entre o uso e o abuso, criminalizando-o de modo idêntico ao que se entorpeceu com grande quantidade de álcool. O Estado se apresenta incapaz de estabelecer diferenças necessárias, de ter senso de medida para separar o joio do trigo. Imaginar que o senso que faltou ao legislador seja corrigido pela autoridade policial de plantão é desconhecer os efeitos que o poder dá à personalidade – e que facilmente inebriam o arbítrio.

     Alcoolismo é doença tipificada e pesquisas internacionais já constataram o óbvio: nos acidentes com vítimas fatais no qual o álcool está envolvido, um dos motoristas está em estado de embriaguez evidente, muitos destes – possivelmente a maioria - podem ser diagnosticados como alcoolistas. Esse é o motivo pelo qual outras nações, mais cuidadosas, diferenciaram o grau de embriaguez e punem mais severamente os reincidentes e aqueles que ingerem maior quantidade de álcool.

     Pode ser que se pense que ao instituir uma lei de tolerância zero o efeito imediato será a inibição de todos os bebedores, mas aí reside outro engano. Constrangem-se com o rigor das penalidades aqueles que têm com o álcool uma relação de autocontrole; aos bebedores contumazes isso nem dará cócegas. Enquanto os que bebem, mas jamais abusam do álcool, cuidarão até do antiséptico bucal, continuaremos a ver jovens morrerem em saídas de festas na qual a cerveja é grátis; ou postos de gasolina lotados de gente bebendo e dando risada da vida, da lei e de seus agentes. E para essa gurizada festiva ser detida, viver o entre e sai de cadeia será apenas mais uma aventura a ser registrada no Orkut. Como antibiótico tomado com freqüência, a ação da lei perderá completamente o efeito inibidor. Mesmo para o dependente crônico do álcool a cadeia não é remédio e poderá, sem resolver o problema, ainda causar graves conseqüências sociais, familiares, profissionais e econômicas.

     Somos um País criativo e se utilizássemos nossas características culturais poderíamos inovar em um sistema que efetivamente punisse os condutores alcoolizados. Brasileiro ama automóvel - ao qual dedica mais dinheiro e atenção do que à saúde ou mesmo ao amor . Pois por que não punir por aí? Alguém só é motorista quando está na condução do volante, tirando-lhe o veículo deixamos de ter o motorista. Recolher o automóvel por um tempo determinado seria uma pena socialmente eficaz por múltiplos motivos: carro recolhido não come e não dá gastos aos demais contribuintes. Enquanto o encarceramento de uma pessoa em nossas superlotadas cadeias custa mais do que a hospedagem num apart hotel, a guarda de um veículo é de total conta do proprietário. Além disso, por ser um objeto de desejo e de grande valor no imaginário coletivo, sua perda por um período representará para muitos maior privação e constrangimento do que passar algumas horas na cadeia.

     Do jeito que está, a "turma do Zeca Pagodinho" vai continuar deixando a vida lhes levar, enquanto os demais temerão até os bombons de licor e o vinho da eucaristia.

RESSONÂNCIAS DO TEMPO

   Publicada no Jornal Agora
Caderno Mulher Interativa
19/07/2008 
     A gente percebe que envelheceu quando começa a fazer coisas que antes pensava que era coisa de velho.


     Coisas de gente velha? Tirar o pó, por exemplo. Quem é jovem nem nota essa coisa de pó. Eles têm ótima visão para perto – aquela que perdemos ao atravessar para a quarta década da existência, entretanto, a acuidade visual é de dedicação exclusiva para conferir espinhas e estrias ou detalhes mínimos do corpo, do traje e coisas do gênero.

     Tirar o pó... Eu, que também já fui jovem, lembro bem como achava estranho aquela rotina matinal de minha avó, tirando o pó das coisas. Ela fez isto enquanto teve saúde. Como ritual religioso, afagava com o pano coisinha por coisinha. Eu nem via o pó que ela tanto limpava – e no entanto enxergava muito melhor do que hoje. O paradoxal é que a visão diminui seu poder de foco, mas amplia a capacidade de ver o que antes não percebíamos.

     Eu me dei conta disto noutro dia, enquanto limpava o jardim e cuidava das plantas. Coisa de velho! Quem é jovem não tem tempo para essas trivialidades, vive correndo de um lado para outro. Quando a gente começa a tirar o pó, cuidar de plantas, fazer coisas do jeito como faziam os velhos que eram nossos tios, avós... não tem jeito: a velhice chegou. E não adianta ficar fazendo isto e mais aquilo para driblar a passagem dos anos: envelhecemos.

    Com o tempo vão chegando modos de ser e de pensar diferentes. A ordem de nossas prioridades se altera progressiva, mas inexoravelmente. Isso é natural e necessário para que possamos atualizar nossa existência à transitoriedade. Somos seres transitórios, com prazo de validade limitado e para lembrar disso a sábia natureza estabeleceu demarcadores no corpo e na alma, são as ressonâncias do tempo.

    A gente não envelhece de repente, de uma hora para a outra, de um minuto para outro. Mas é na rapidez de um instante que cai a ficha do insigth e percebemos, de súbito, o tempo passado e os efeitos marcados. Tornamo-nos outros. Dá para tentar com mil artifícios resistir e reparar as marcas estéticas, mas a briga é inglória. É apenas uma questão de tempo e ele, o tempo, vencerá.

    O tempo a todos vence: aos impacientes, aos vaidosos, aos poderosos, aos belos, aos feios, aos ricos, aos pobres, aos inteligentes, aos cultos, aos torpes. Ninguém, absolutamente ninguém, a ele supera ou sobrevive. É o senhor da vida. Um senhor de várias faces, que se apresenta pródigo, generoso e tolerante ao início, mas vai, aos poucos, lentamente, mudando de cara e de ânimo. Torna-se sisudo e exigente, depois rabugento e intransigente. Deixa de perdoar nossos menores enganos e cobra caro por qualquer pequena mancada. É quando não há mais tempo para ser perdido, desperdiçado, devorado com pressa. Não. Não há mais pressa. A vida passa a ser sorvida em pequenas doses, saboreada lentamente e isto, quando vivido de modo sadio e equilibrado, se revela supreendentemente bom e gratificante.

O DESEJO DOS OUTROS

     Publicada no Jornal Agora
Caderno Mulher Interativa
02/08/2008
     O que faz com que tantas pessoas esperem semanas para ter um determinado modelo de carro, mesmo havendo muitos outros disponíveis?


      São tantas as opções, algumas bastante semelhantes. Por que um determinado veículo consegue se tornar o objeto de desejo, diferente de todos os demais, um "sonho" a ser consumido? Questão análoga surge quando nos deparamos com outras escolhas e percebemos que alguma coisa atravessa determinada decisão, retirando-nos de sua autoria. Por exemplo: por que é mais fácil aceitar esperar por uma vaga em restaurante lotado do que entrar em outro que esteja vazio e ofereça a possibilidade de escolher confortavelmente um lugar dentre todos os disponíveis? Por que temos que comprar tudo o que os outros estão comprando e ir aos lugares onde todos estão indo?

     As respostas remetem a uma cena infantil que atravessa os tempos e resiste a todas as transformações de costumes. Crianças estão brincando e de repente "fecha o tempo" porque uma resolveu retirar o brinquedo com o qual outra se divertia. O que a criança está querendo não é o brinquedo em si; é a brincadeira, é o prazer que percebe no outro... É o desejo do outro. Tira o objeto querendo pegar o desejo do outro, que brinca, diverte, faz graça... A Psicanálise lacaniana muito bem trata do desejo do outro, mas não vou enveredar por este caminho, pois quero voltar para o cotidiano dos desejos coletivos.

     Quero falar dos desejos dos outros, pluralizados no coletivo amplo exageradamente chamado de "todo o mundo", que nos envolve e nos conduz ao senso comum, a termos todos as mesmas idéias ou agir como se as tivéssemos.

     É isto o que acontece nessa demanda de coisas que nos acenam com a promessa de felicidade completa, os sonhos de consumo que "todo o mundo" tem e que nos autorizam a deixar de usar nossas próprias cabeças para escolher. Há guias para nos conduzir a modos de ser, de vestir; guias para nos levar a lugares que nem sabíamos existirem, mas que não podemos morrer sem conhecer.

     Modas de todos os tipos que - com suas pretensões de vanguarda - nos colocam conformados e são por isso bastante tiranas. Ficamos todos sendo "Marias que vão com as outras", pasteurizados em modos coletivos de viver. Ser e agir como todo mundo nos coloca em trilhos e bem pode nos levar para o inferno existencial de não viver a própria vida e ainda pagar caro preço por isto. Podemos engrossar a fila dos que esperam por algum objeto da moda, mas que isso não nos tire o sono e nem o senso de medida. Podemos brincar com o que todo mundo brinca, usar o que está na moda, mas que essas coisas não se tornem imperativas em nossa vida, senhoras de nosso destino, e que se preserve em cada um de nós a originalidade, a autonomia e a liberdade de ser e de viver.

A LIÇÃO DAS BICICLETAS CHINESAS

     Publicado no Jornal Agora
Caderno Mulher Interativa
16/08/2008
Certas coisas passam a nos envolver com tal freqüência que se tornam naturais. Uma dessas novidades relativamente recentes é a oferta de seguros atrelados a qualquer coisa que se compre ou qualquer serviço que se contrate. Num mundo assustado com uma avalanche de perigos reais e imaginários, sentir-se seguro vale o preço cobrado ou parece valer.


     Noutro dia, ao fazer uma compra banal de algumas peças de vestuário, a atendente me ofereceu incluir na nota um seguro. Seguro? Como não aceitei o serviço, foi-me então informada a grande vantagem de concorrer a um pequeno prêmio em dinheiro. Duas coisas bem nossas: o medo de perder e a fantasia de ganhar. Vivemos entre o tormento de ter segurança máxima e o sonho coletivo de um enriquecimento súbito. Por isso, as seguradoras nos bombardeiam com os dois desejos num só golpe: ou somos capturados pela ilusão de estarmos seguros ou então pela fantasia de que ficaremos ricos ou no mínimo ganharemos alguma coisa.

     Somos um povo sonhador, que adora a idéia de ganhar qualquer coisa: da Mega-Sena acumulada ao sorteio da rifa do colégio. Continuamos um pouco índios, encantados com a magia dos espelhos.

     O seguro vem embutido em tudo: seguro-desemprego, seguro-quebra, perda; garantia estendida. E o que dizer da garantia estendida? A pessoa já paga antecipadamente pela possibilidade de estrago, o produto nem precisa estragar, pois já pagamos o conserto hipotético. A gente leva para casa a coisa novinha, mas com a idéia de que vai quebrar - ah vai, é tão certo que já até pagamos por isso.

     Pois olhando pela TV a cena dos milhões de bicicletas chinesas, velhas, estropiadas, não pude pensar na diferença de mentalidade. Os orientais têm outra visão e reagem de modo diferente. Quando passaram a sofrer freqüentes furtos e roubos, porque não inventaram apetrechos de segurança para suas bicicletas? Logo eles, que nos vendem de tudo e têm uma inteligência tecnológica privilegiada. Por que não fizeram seguros contra roubos? A mentalidade chinesa é mais prática, objetiva e sábia: simplificou o problema, cortou o mal pela raiz, literalmente. Desapegou-se das necessidades estéticas e passou a tornar o veículo apenas um transporte; algo tão barato que, em caso de roubo, pudesse ser substituído prontamente, sem prejudicar sua função de locomoção. Por certo, os longínquos chineses têm outro modo de viver, radicalmente diferente do pensar ocidental. Mas não precisamos fazer meia volta ao mundo para encontrar outro exemplo de como viver e reagir diferente. Basta irmos comprar alfajores no vizinho Uruguai. Os uruguaios usam veículos que são verdadeiros espetáculos circenses, mas andam, e certamente não despertam mínimo desejo de furto, pois só o dono deve conseguir que funcionem. Enquanto isso, nós, financeiramente muito fartos, nos damos ao luxo de pagar valores extras por tudo, para levarmos para casa a garantia de que não seremos roubados, de que o produto não vai estragar, de que não vão usar nosso cartão de crédito, de que não vai dar curto-circuito na ligação elétrica, de que se perdermos a chave de casa um chaveiro nos socorrerá no final de semana... Entre seguros e sorteios, estão surrupiando nossos tostões, e de quinhão em quinhão, alguém está juntando bilhão.



CHOVE CHUVA...

Publicada no Jornal Agora
Caderno Mulher Interativa
30/08/08

     "Chove chuva, chove sem parar", Jorge - o Bem Jor, pode até cantarolar, mas para essas bandas distantes do Equador esse chover sem cessar é bem pouco inspirador. Difícil cantar ou dançar na chuva, como Fred Astaire. É chuva demais, geralmente tocada a ventos uivantes. Não bastassem as águas e os ventos, volta e meia nos aterrorizam os presságios de chuva de pedras, o destruidor granizo. Sem termos a esperança de que o inverno nos brinde com a graça da neve, ainda somos apedrejados pelos céus. As paredes vertem água, como se chorassem. A vida se torna úmida, cinzenta, insalubre e vamos ficando também cinzentos, abatidos, mofados, amarfanhados, arroxeados... A umidade das ruas e o cinza do céu matizam nosso corpo. Não há como deixar de franzir a fronte, recolher-se, encolhendo o pescoço para dentro de golas e mantas. Como o cérebro só sabe o que está fora dele a partir dos sinais corpóreos e o que o corpo informa nesses dias é que a coisa está brava e o mar não está para peixe, nossa mente - ou nossa alma - se entristece.


     Resultado: no meio de tanta água e tanto frio, ficamos mais para desacorçoados cachorros molhados do que para saltitantes sapos faceiros.

     Após os intermináveis períodos chuvosos, não nos chega a bonança.

     Precisamos enfrentar semanas e mais semanas sombrias que de tão longas nos fazem esquecer a cor do céu e o brilho do sol. Convenhamos que na latitude-32° estamos muito mais próximos do preto-e-branco antártico do que da vida tecnicolor do país tropical. O corpo sofre realmente com a falta de luz dos dias chuvosos de inverno. Nosso relógio biológico perde a sincronia, produz menos serotonina, um hormônio ligado ao bem-estar e capaz de regular as oscilações de humor. Os dias curtos alongam a escuridão das noites estimulando a produção de melatonina, que é um indutor do sono e do relaxamento. A orquestra orgânica afunda o ânimo da maioria das pessoas. Naturalmente algumas sofrem mais do que outras, havendo aquelas que se abatem duramente, mergulhando na chamada depressão sazonal, que compromete de modo severo o dia-a-dia e merece receber tratamento específico. Mas para a maioria, o desconforto é superado no raiar do primeiro dia de sol, arejando o ânimo e trazendo de volta a disposição de vida. Intuitivamente buscamos a fototerapia natural: "lagarteamos" nos dias de sol, percebendo que a luz do dia nos traz de volta a energia perdida. Precisamos de luz para viver.

     Que bom que se foi o agosto! Que o setembro nos restitua as cores, a luz e a alegria de mais uma primavera.

VAGA PARA TRABALHO TEMPORÁRIO

  Publicada no Jornal Agora
Caderno Mulher Interativa
13/09/2008 

     Procura-se candidato para trabalho temporário em função de alta relevância pública.


     A remuneração é excelente, valor muito acima dos níveis de mercado, sendo composta de parte fixa e parcela para suplementação de despesas variáveis (como diárias, etc.). Apesar de generoso, o provento não fará de ninguém um milionário - quem desejar tal objetivo deve continuar perseguindo a Mega Sena e outros recursos do gênero.

    A jornada de serviço será reduzida - bem reduzida, possibilitando tempo livre suficiente para estudos, contatos com a comunidade e diversões em geral. Por ser bastante restrito o turno de trabalho, se exigirá que o candidato seja assíduo e compareça pontualmente nas atividades estabelecidas - como audiências e reuniões. Faltas e atrasos serão registrados e descontados dos proventos.

    O contrato será pelo prazo fixo de quatro anos. Para merecer o cargo, o candidato apresentará uma proposta de trabalho factível, que possa ser cumprida no tempo previsto. Ao término, poderá voltar a se candidatar para novos trabalhos, devendo passar por idêntico processo de seleção.

    Os sucessivos contratos não gerarão vínculo empregatício ou ilusão de estabilidade funcional. Enfatiza-se: o trabalho é temporário e quem desejar estabilidade, deve buscar a longa fila do concurso público, na porta ao lado.

     Não será exigido nível de formação escolar, mas é indispensável que o candidato demonstre ter mínimas condições intelectuais e conhecimento funcional da Língua Portuguesa para que possa desenvolver tarefas que exigirão leitura, interpretação e redação de textos. Essas características serão avaliadas na apresentação que o candidato fizer de si mesmo, tanto oral quanto escrita. Nesta apresentação, deverá expor uma breve história de sua vida, suas expectativas em relação à função e a seu futuro pessoal e profissional, incluindo neste último uma referência de como pretenda prover sua existência ao final do contrato de trabalho, aspecto importante para demonstrar sua prudência e preparação para se ajustar ao previsível término de sua missão. Como característica de personalidade é indispensável que seja pessoa de caráter íntegro e personalidade madura, capaz de resistir a assédios de todo gênero, pois o contexto de seu serviço envolverá conflitos de interesses e variadas tentações. Além de ser honesto, terá que demonstrar ser honesto, de uma honestidade límpida e absolutamente transparente. Deverá ser pessoa altruísta, capaz de cuidar de interesses coletivos e sociais com o mesmo ou ainda maior zelo do que o que cuida daquilo que é seu, sem que com isto confunda uma com outra coisa.

     A função é pessoal e intransferível, não estando previsto plano de emprego familiar. Os candidatos devem estar cientes de que a função será pública e exigirá abrir mão de parcela significativa de sua privacidade.

     O trabalho é sério e o ambiente sóbrio, motivo pelo qual serão prontamente eliminados os pretendentes que fizerem gracinhas ou demonstrarem comportamentos inadequados e propostas esdrúxulas em sua apresentação.